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Assim a Vida nos Afeiçoa

de

Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o sumo bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: – Vem!

E a vida vai tecendo laços,
Quase impossíveis de romper:
Tudo que amamos são pedaços
vivos de nosso próprio ser

A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel…

postado por em 13-03-2007
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4 Comentários para “Assim a Vida nos Afeiçoa”


  1. cristiane disse:

    Estou fazendo uma análise estilística desse verso…pena que vc não analisou…


  2. luiz fermino freita soares disse:

    na poesia de manuel bandeira “a vida assim nos afeiçoa” faltam versos. segue a poesia completa:
    Se fosse dor tudo na vida,
    Seria a morte o sumo bem.
    Libertadora, apetecida,
    A alma dir-lhe-ia, ansiosa: – Vem!

    Quer para a bem-aventurança
    Leves de um mundo espiritual
    A minha essência, onde a esperança
    Pôs o seu hálito vital;

    Quer no mistério que te esconde,
    Tu sejas, tão somente, o fim:
    – Olvido, impertubável, onde
    “Não restará nada de mim!”

    Mas horas há que marcam fundo…
    Feitas, em cada um de nós,
    De eternidades de segundo,
    Cuja saudade extingue a voz.

    Ao nosso ouvido, embaladora,
    A ama de todos os mortais,
    A esperança prometedora,
    Segreda coisas irreais.

    E a vida vai tecendo laços
    Quase impossíveis de romper:
    Tudo o que amamos são pedaços
    Vivos do nosso próprio ser.

    A vida assim nos afeiçoa,
    Prende. Antes fosse toda fel!
    Que ao se mostrar às vezes boa,
    Ela requinta em ser cruel…


  3. Gustavo disse:

    O poema tem afinidades com este aforisma de Nietzsche, em ‘Humano, Demasiado Humano’ (NT):

    71. A esperança. – Pandora trouxe o vaso que continha os males e o abriu. Era o presente dos deuses aos homens, exteriormente um presente belo e sedutor, denominado “vaso da felicidade”. E todos os males, seres vivos alados, escaparam voando: desde então vagueiam e prejudicam os homens dia e noite. Um único mal ainda não saíra do recipiente; então, seguindo a vontade de Zeus, Pandora repôs a tampa, e ele permaneceu dentro. O homem tem agora para sempre o vaso da felicidade, e pensa maravilhas do tesouro que nele possui; este se acha à sua disposição: ele o abre quando quer; pois não sabe que Pandora lhe trouxe o recipiente dos males, e para ele o mal que restou é o maior dos bens – é a esperança. – Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhe deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolona o suplício dos homens.


  4. Elizabeth disse:

    Belos versos em que a melancolia é o fundo que acaba por animar a poesia, constituindo-se como síndrome criadora.

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