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Autobiografia: Solo de Clarineta – Memórias (1º volume) 1973

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O meu amigo mais íntimo é o sujeito que vejo todas as manhãs no espelho do quarto de banho, à hora onírica em que passo pelo rosto o aparelho de barbear. Estabelecemos diálogos mudos, numa linguagem misteriosa feita de imagens, ecos de vozes, alheias ou nossas, antigas ou recentes, relâmpagos súbitos que iluminam faces e fatos remotos ou próximos, nos corredores do passado – e às vezes, inexplicavelmente, do futuro – enfim, uma conversa que, quando analisamos os sonhos da noite, parece processar-se fora do tempo e do espaço. Surpreendo-me quase sempre em perfeito acordo com o que o Outro diz ou pensa. Sinto, no entanto, um pálido e acanhado desconforto por saber que existe no mundo alguém que conhece tão bem os meus segredos e fraquezas, uns olhos assim tão familiarizados com a minha nudez de corpo e espírito. Talvez seja por isso que com certa freqüência entramos em conflito. Mas a ridícula e bela verdade é que no fundo, bem feitas as contas, nós nos queremos um grande bem. Estamos habituados um ao outro. Envelhecemos juntos. A face do Outro é o meu calendário implacável. “Os cabelos te fogem, homem” – murmuro-lhe às vezes – “Tuas carnes se tornas flácidas. Vejo a escrita do tempo no pergaminho do teu rosto”. – “E como imaginas que estás?” – replica o meu reflexo. Acabamos consolando-nos mutuamente com a idéia de que conservamos a mocidade de espírito. Mas até onde isso é verdade? Encolhemos os ombros e passamos a outras considerações e devaneios, enquanto o barbeador elétrico zumbe, e o incansável calígrafo invisível continua no seu sutil trabalho de amanuense da Morte.

Solo de Clarineta é dividido em dois volumes. No primeiro Veríssimo conta e sua infância e adolescência até a idade adulta quando abandona o cargo na UPA e sua filha Clarissa casa-se com o físico americano David Jaffe. Na segunda, após relatar o nascimento de seus três netos e o escrever de O Arquipélago (e o primeiro dos ataques cardíacos), Érico começa a contar sua viagens. A primeira é a viagem a Grécia. Depois conta sobre O Senhor Embaixador e então… Portugal! Veríssimo era apaixonado pelo país e conta de seu tour pelo país em 1959 junto com a esposa Mafalda , seu editor e seu filho Luís Fernando. Infelizmente Érico morreu antes de concluir este volume e iniciar o terceiro, mas sobra ainda uma segunda parte deste segundo volume, contando sobre a Holanda, a Espanha e um colóquio entre ele e o homem no espelho onde analisa a si mesmo, sua obra, suas opiniões e sua autobiografia: o que ele nos deu foi “não um concerto de jazz ou uma grande peça sinfônica, mas um solo de clarineta.”

http://www.literaturanet.hpg.ig.com.br/r_solodeclarineta.htm
postado por em 05-02-2006
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5 Comentários para “Autobiografia: Solo de Clarineta – Memórias (1º volume) 1973”


  1. Gustavo de Souza Lindofol disse:

    Adorei essa Autobiográfia,muito bom…
    Achei bem interessante e realista pois a história é muito bem contada.
    Parabéns Erico Lopes Verissímo.


  2. Ediloy Antonio Carlos Ferraro disse:

    …cogitações feitas de si para si, na imagem refletida no espelho…que riqueza de detalhes nos brinda nesta narrativa autobiográfica, tem uma sonoridade de distâncias, de ecos, de familiaridade que açambarca e nos envolve nestes rodopios melancólicos,como se o Tempo fosse se decompondo e inexoravelmete trazendo nossas imagens indelevelmente assinaladas, nossos vestígios, estigmas, memórias e lágrimas…


  3. daiane aparecida de moura disse:

    eu achei muito iteressante esta biografia tambem tem muitas coisas diferentes


  4. Jady thais Garcia disse:

    Autobiográfia Fantastica adorei!


  5. Gabriella C. disse:

    Olá, meu nome é Gabriella, tenho 12 anos preciso fazer um trabalho de português, sobre a auto-biografía de Cecíla Amaral, o trabalho é para dia 17/03, e até agora não encontrei nada..
    🙁
    Espero que me consigam me ajudar!
    Um abraço!
    Gabriella C.

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