Blog dos Poetas

O Sono das Águas

de

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.

Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

postado por em 02-09-2006

1 Comentário para “O Sono das Águas”


  1. Simone Dall' Agnol disse:

    Por pouco conhecer as obras de Guimarães não posso falar muito, mas posso comentar…hehehehe
    Ele tem concerteza uma capacidade enorme de mergulhar no que nós tentamos expressar por palavras, ele traduz nosso pensamento em poesia!!!Simplis mas necessita-se do Dom.
    Abraços….

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