Tomou-me vossa vista soberana
de Luís Vaz de CamõesCuidei de me salvar, mas foi em vão,
Que contra o Céu não há defensa humana.
Cuidei de me salvar, mas foi em vão,
Que contra o Céu não há defensa humana.
Vereis, Senhora, então também mudado
O pensamento e aspereza vossa,
Quando não sirva já sua mudança.
Suspirareis então pelo passado.
Tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;
Queria que visto fosse e invisível;
Jura Amor que brandura de vontade
Causa o primeiro efeito; o pensamento
Endoudece, se cuida que é verdade.
Porque, inda mais que se tema de mudanças,
Menos se teme a dor quando se sente.
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto: