Prazer e Pesar
de Gregório de MatosMas ai fado cruel! que são azares
Toda a sorte, que dás dos teus haveres,
Pois val o mesmo dares, que não dares.
Mas ai fado cruel! que são azares
Toda a sorte, que dás dos teus haveres,
Pois val o mesmo dares, que não dares.
Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Que és terra, homem, e em terra hás de tornar-te,
Te lembra hoje Deus por sua Igreja;
De pó te faz espelho, em que se veja
A vil matéria, de que quis formar-te.
De uma falsa esperança fantasia,
Que faz que de um momento passe a um dia,
E que de um dia passe à eternidade!
Muito bem-vinda seja a esta mofina e mísera cidade,
Sua justiça agora, e eqüidade, e letras
com que a todos causa inveja.
Quem do mundo a mortal loucura cura,
A vontade de Deus sagrada agrada.
Mui grande é vosso amor e o meu delito;
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.