Blog dos Poetas

Roda-viva

de

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo (etc.)

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo (etc.)

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo (etc.)

postado por em 17-11-2005
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6 Comentários para “Roda-viva”


  1. O Tamanho do Meu Amor! by Antero Vaz de Andrade « Brasil Poesias disse:

    […] Roda-viva […]


  2. EDILOY A C FERRARO disse:

    Chico Buarque musicou o ambiente da repressão política com o afã de um crônista que redige no cotidiano uma coluna… Roda Viva espelha bem esse momento de desalento, de mordaça, cinza, sufocante, de arbitrárias licenciosidades civis… “A gente vai contra a corrente, até não poder resistir…”
    Também trás a imagens de sonhos que se desencantam, na impossibilidade de suas realizações… Pena, hoje, aos mais jovens, necessitarem de preâmbulos explicativos para entenderem esse retrato de uma época de triste memórias…


  3. felipe rainato disse:

    Ediloy, Roda Viva não foi composta no contexto de forte repressão aos direitos de livre expressão impostos pelo AI-5.
    Roda Viva foi, inicialmente, uma peça de Chico, a qual mal podia-se observar um fundo crítico ao regime já ditatorial. Vale lembrar que Roda Viva fora escrita antes do AI-5.
    Talvez tenha sido Roda Viva um dos grandes motivos que fizeram Chico engajar-se politicamente. A peça fora incendiada pelo comando de Sílvio de Salvo Venosa – hoje ele é um dos expoentes acadêmicos no campo do Direito Civil, infelizmente – e, a partir daí, e de retribuições oriundas do sucesso de “A Banda”, Chico relacionou sua arte com o movimento contra a repressão.
    O que eu defendo é que Roda Viva é a arte além de seu tempo. Não que Chico tenha premeditado a dura repressão do regime ditatorial brasileiro, mas que a carapuça serviu, ahhh serviu!
    Roda Viva foi além de seu tempo, foi, posteriormente, contemporânea, e hoje nos ensina a lidar, artisticamente, com a repressão da liberdade de expressão.


  4. Camillo disse:

    Se o Médici desse um ministério para a irmã dele ele escrevia uma música para falar bem do regime.


  5. José Baptista Júnior disse:

    Camillo, seu comentário é totalmente impertinente. E o que sugere é pior ainda.


  6. Veronica Dantas disse:

    Roda viva é arte pura e requer sensibilidade para senti-la! Quem a sente, é um privilegiado! Não há o que se discutir…Grande Chico, poeta atemporal!!!!

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