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O Guardador de Rebanhos, III

de

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos …

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…

postado por em 25-08-2006
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2 Comentários para “O Guardador de Rebanhos, III”


  1. EDILOY A C FERRARO disse:

    …estes versos lembram-me, certa feita, a pergunta feita a um amigo: por que as canções sertanejas trazem tanta melancolia ? e ouvi a sensata resposta:
    a voz do homem do campo, na cidade, saudoso de suas raízes…

    Assim vejo esse heterônimo de Fernando Pessoa ao referir-se a outro poeta, Cesário Verde, observando sua tristeza urbana com os olhos bucólicos e saudosos


  2. Miguel Afonso disse:

    Quantos de nós andamos presos em liberdade por tantas cidades que nos são estranhas…

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