Blog dos Poetas

Na ponta do morro

de

Na ponta do morro,
mulheres descalças
põem flores nas jarras
da capela de ouro.

As jarras são feias,
têm asas quebradas.
Também as toalhas
se esgarçam nas rendas.

As mulheres passam,
com gestos antigos,
entre crucifixos
e auréolas de prata.

Seus gestos são os mesmos
gestos de outras datas,
dentro de outras raças,
longe, noutros templos.

Mas não sabem disso,
e mudam, nas jarras,
as flores e a água
com o jeito submisso

de quem se contenta
em ser sombra vaga
da Vida Sonhada
por toda a existência.

(in Cecília Meireles, Poesia Completa, Canções)

postado por em 06-12-2008
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3 Comentários para “Na ponta do morro”


  1. Sônia disse:

    Perfeita cena do cotidiano dos sonhos desfeitos, do conformismo à vida que se nos apresenta…
    Lindo poema.


  2. Iasmin disse:

    Muito lindo, copie…


  3. Paulo disse:

    Que coisa bonita. A alma do poeta extrapola em metáforas o cotidiano, e faz surgir a beleza do estar presente. Cecília é um mestre na arte de falar o ser. Gostei do comentário acima da Sônia.

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