Blog dos Poetas

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de

Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue…

Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados…

Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços…
E nas mãos, presas com fitas
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços…

Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue…

Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!…

Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei…

Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo…

E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes…

Ah! Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo…

postado por em 20-01-2010
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3 Comentários para “Anúncio”


  1. EDILOY AC FERRARO disse:

    …linda escolha, poema emblemático, reflexivo, existencialista, recheado de metáforas que o embelezam em seu cantar triste…parabéns por nos trazer esses devaneios tão formosos.


  2. Anúncio – por Alda Lara | Alan Castro disse:

    […] Link: Anúncio – por Alda Lara […]


  3. EDILOY A C FERRARO disse:

    A título de contribuição para o leitor sobre a autora, transcrevo a breve biografia de Alda Lara, transcrito do blog do Lima Coelho, que me pareceu oportuno:

    Alda Lara – Poetisa angolana, Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque nasceu a 9 de junho de 1930, em Benguela.
    Tendo vindo para Portugal muito nova, concluiu em Lisboa o ensino secundário. Distinguiu-se como aluna no Colégio de Paula Frassinetti da cidade de Sá da Bandeira – hoje Lubango – e no Liceu D. Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa, onde terminou o 7.º ano.
    Começando por frequentar a Faculdade de Medicina de Lisboa, acabou o curso em Coimbra, onde apresentou uma tese sobre “Psiquiatria Infantil”. Reconhecida no meio académico, esta tese proporcionou-lhe um convite para se especializar em Paris, para que depois ingressasse num estabelecimento psiquiátrico de Lisboa. Contudo, a sua dedicação e amor à Terra-Mãe impediu-a de responder a esta solicitação.
    Irmã do escritor Ernesto Lara Filho, casou-se com o escritor Orlando de Albuquerque, também médico de profissão, e frequentou, como muitos outros seus conterrâneos, a da Casa dos Estudantes do Império (CEI), onde desenvolveu imensa atividade.
    Com uma grande ligação ao mundo literário, Alda Lara era reconhecida pela sua capacidade de declamação, cuja singularidade atraiu, entre outros, os poetas africanos. Assim, fez vários recitais em Lisboa e Coimbra, transformando estes lúdicos momentos em verdadeiros veículos de divulgação da poesia negra, até então ainda muito desconhecida.
    Foi colaboradora de alguns jornais e revistas, nomeadamente do Jornal de Benguela, do Jornal de Angola, do ABC e Ciência e da revista Mensagem da CEI, da responsabilidade do Departamento Cultural da Associação dos Naturais de Angola (ANANGOLA). Nesta revista publicou, no número de abril de 1952, o poema “Rumo”, dedicado ao falecido estudante e contista moçambicano João Dias.
    Integrando a Geração da Mensagem, fortemente influenciada formal e tematicamente pela corrente Modernista de 1922 e pelo Neorrealismo português, a autora vai saciar-se nas origens do seu povo, descaracterizado por imposição da cultura colonial. Neste pretérito ancestral, metaforicamente designado por “Mãe África”, a autora, assim como todos os “poetas mensageiros” vai encontrar a Alma da sua produção textual através da qual procura “despir-se” da camisa opressiva da história colonial. O drama dos contratados, a situação da mulher angolana, a repressão exercida sobre o uso das línguas nativas, o desejo de regressar, etc., são, por isso, temas recorrentes e abordados de forma avassaladora: ” Quando eu voltar/que se alongue sobre o mar/o meu canto ao Criador!/Porque me deu a vida e o amor,/para voltar? / Ah! Quando eu voltar?/Hão de as acácias rubras,/a sangrar/numa verbena sem fim,/florir só para mim./E o sol esplendoroso e quente,/ o sol ardente,/há de gritar na apoteose do poente,/o meu prazer sem lei?/A minha alegria enorme de poder/enfim dizer:/Voltei!?”.
    Tendo sido publicada postumamente num volume de poesia e num caderno de contos pelo seu marido, Orlando de Albuquerque, a sua obra figura em diversas antologias, a saber: Antologia de poesias angolanas, Nova Lisboa, 1958; Amostra de poesia in Estudos Ultramarinos, n.º 3, Lisboa, 1959; Antologia da Terra Portuguesa – Angola, Lisboa, s/d; Poetas Angolanos, Lisboa, 1962; Poetas e Contistas Africanos, S. Paulo, 1963; Mákua 2, Antologia Poética, Sá da Bandeira, 1963; Contos Portugueses do Ultramar- Angola, 2.º volume, Porto, 1969; Livros Póstumos: Poemas, Sá da Bandeira, 1966; Tempo de Chuva, Lobito, 1973.
    Com uma atividade diversificada, fez também algumas conferências, uma das quais – “Conferência sobre problemas da Assistência Médica Missionária em África” – se encontra publicada, dada a sua importância e repercussão.
    Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prémio Alda Lara para poesia.
    Faleceu em Cambambe, no Kwanza-Norte, a 30 de janeiro de 1962.

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