# Blog dos Poetas ## Posts - [Pescar](https://blogdospoetas.com.br/pescar/): Pescar na calmaria das águas do tempo,Onde os sonhos flutuam, em silêncio, lentos.A vara se estica, o olhar é atento,Na esperança de um abraço, um breve momento. Pescar os dias, como peixes dourados,Que nadam nos rios dos nossos cuidados.Cada onda, um segredo, cada toque, um desejo,Na linha da vida, entre o erro e o acerto, o ensejo. Pescar o sol quando se põe no horizonte,Ou a lua que dança sobre o mar em monte.Cada lanterna de estrelas, um novo caminho,Pescar a paz nas profundezas, sem espinho. E às vezes, no fundo, algo se esconde,Uma emoção que a alma responde.Como Pescar… Pescar - [Pescaria](https://blogdospoetas.com.br/pescaria/): Cesto de peixes no chão.Cheio de peixes, o mar.Cheiro de peixe pelo ar.E peixes no chão. Chora a espuma pela areia,na maré cheia. As mãos do mar vêm e vão,as mãos do mar pela areiaonde os peixes estão. As mãos do mar vêm e vão,em vão.Não chegarãoaos peixes do chão. Por isso chora, na areia,a espuma da maré cheia. - [Sugestão](https://blogdospoetas.com.br/sugestao/): Sede assim – qualquer coisaserena, isenta, fiel.Flor que se cumpre,sem pergunta.Onda que se esforça,por exercício desinteressado.Lua que envolve igualmenteos noivos abraçadose os soldados já frios.Também como este ar da noite:sussurrante de silêncios,cheio de nascimentos e pétalas.Igual à pedra detida,sustentando seu demorado destino.E à nuvem, leve e bela,vivendo de nunca chegar a ser.À cigarra, queimando-se em música,ao camelo que mastiga sua longa solidão,ao pássaro que procura o fim do mundo,ao boi que vai com inocência para a morte.Sede assim qualquer coisaserena, isenta, fiel.Não como o resto dos homens. - [O Sono das Águas](https://blogdospoetas.com.br/o-sono-das-aguas/): Há uma hora certa,no meio da noite, uma hora morta,em que a água dorme. Todas as águas dormem:no rio, na lagoa,no açude, no brejão, nos olhos d’água,nos grotões fundosE quem ficar acordado,na barranca, a noite inteira,há de ouvir a cachoeiraparar a queda e o choro,que a água foi dormir… Águas claras, barrentas, sonolentas,todas vão cochilar.Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,fios brancos, torrentes.O orvalho sonhanas placas da folhageme adormece.Até a água fervida,nos copos de cabeceira dos agonizantes… Mas nem todas dormem, nessa horade torpor líquido e inocente.Muitos hão de estar vigiando,e chorando, a noite toda,porque a água dos olhosnunca tem sono… - [A Educação pelo Pó](https://blogdospoetas.com.br/a-educacao-pelo-po/): Os fatos e coisas do cotidiano,Parecem-nos doces e sadios.Encarnam a doçura daquilo que não se esvai,Como se o tempo e a felicidade se estendessem ao infinito.Entretanto, doces enganos sãoEstes pensamentos seguros a respeito do mundo.Tolos somos todos, nós que acreditamos naquilo que nos cerca,E nos deixamos seduzir pelo canto das sereias.Nada mais fugaz do que o tempo,Nem mais frágil do que a felicidade.Tudo é inseguro, tudo é fugaz,E de certeza só a morte fatal.Que as rochas durem quase uma eternidade, aceitemos!Que a água se renova num ciclo indestrutível aos nossos olhos, tudo bem!Mas isto não garante a eternidade das coisas.Do… Pescar - [Minha Rua](https://blogdospoetas.com.br/minha-rua/): Minha rua era tão minhaem sua simplicidade… Não sei de onde é que ela vinha,mas ia para a cidade. Com suas pedras redondase duas magras calçadas,não tinha praia nem ondas,mas como tinha enxurradas! Era alegre, era risonha,tinha orquestra de pardais,e a cantilena enfadonhade mil pregões matinais. Ali cresci, me fiz homem,e a minha rua, coitada…qual as mães que se consomem,foi tudo, sem querer nada. Foi pista dos meus brinquedos,de jogos de correrias…Foi dona dos meus segredosviu tristezas, alegrias… Viu meus passos imprecisos,viu-me garoto, um traquinas,e viu-me trocar sorrisosnas rondas pelas esquinas. Viu-me também, certo dia,sair da lá, nem sei quando…… Pescar - [A Esperança](https://blogdospoetas.com.br/a-esperanca/): A Esperança não murcha, ela não cansa,Também como ela não sucumbe a Crença.Vão-se sonhos nas asas da Descrença,Voltam sonhos nas asas da Esperança. Muita gente infeliz assim não pensa;No entanto o mundo é uma ilusão completa,E não é a Esperança por sentençaEste laço que ao mundo nos manieta? Mocidade, portanto, ergue o teu grito,Sirva-te a crença de fanal bendito,Salve-te a glória no futuro – avança! E eu, que vivo atrelado ao desalento,Também espero o fim do meu tormento,Na voz da morte a me bradar: descansa! - [Coração de Pedra](https://blogdospoetas.com.br/coracao-de-pedra/): Oh, quanto me pesaeste coração, que é de pedra!Este coração que era de asasde música e tempo de lágrimas. Mas agora é sílex e quebraqualquer dura ponta de seta. Oh, como não me alegrater este coração de pedra! Dizei por que assim me fizestes,vós todos a quem amaria,mas não amarei, pois sois estesque assim me deixastes, amarga,sem asas, sem música e lágrimas, assombrada, triste e severae com meu coração de pedra! Oh, quanto me pesaver meu próprio amor que se quebra!O amor que era mais forte e voavamais que qualquer seta! - [Destino](https://blogdospoetas.com.br/destino/): Pastora de nuvens, fui posta a serviçopor uma campina desamparadaque não principia e também não termina,onde nunca é noite e nunca madrugada. (Pastores da terra, vós tendes sossego,que olhais para o sol e encontrais direção.Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo.Eu, não.) Pastora de nuvens, por muito que espere,não há quem me explique meu vário rebanho.Perdida atrás dele na planície aérea,não sei se o conduzo, não sei se o acompanho. (Pastores da terra, que saltais abismos,nunca entendereis a minha condição.Pensais que há firmezas, pensais que há limites.Eu, não.) Pastora de nuvens, cada luz coloremeu canto e meu gado de… Pescar - [O Fazedor de Amanhecer](https://blogdospoetas.com.br/o-fazedor-de-amanhecer/): Sou leso em tratagens com máquina.Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.Em toda a minha vida só engenheiTrês máquinasComo sejam:Uma pequena manivela para pegar no sono.Um fazedor de amanhecerpara usamentos de poetasE um platinado de mandioca para ofordeco de meu irmão.Cheguei de ganhar um prêmio das indústriasautomobilísticas pelo Platinado de Mandioca.Fui aclamado de idiota pela maioriadas autoridades na entrega do prêmio.Pelo que fiquei um tanto soberbo.E a glória entronizou-se para sempreem minha existência. - [Pobre Amor](https://blogdospoetas.com.br/pobre-amor/): Calcula, minha amiga, que tortura!Amo-te muito e muito, e, todavia,Preferira morrer a ver-te um diaMerecer o labéu de esposa impura! Que te não enterneça esta loucura,Que te não mova nunca esta agonia,Que eu muito sofra porque és casta e pura,Que, se o não foras, quanto eu sofreria! Ah! Quanto eu sofreria se alegrassesCom teus beijos de amor, meus lábios tristes,Com teus beijos de amor, as minhas faces! Persiste na moral em que persistes.Ah! Quanto eu sofreria se pecasses,Mas quanto sofro mais porque resistes! - [A Rua dos Cataventos ( I )](https://blogdospoetas.com.br/a-rua-dos-cataventos-i/): Escrevo diante da janela aberta.Minha caneta é cor das venezianas:Verde!… E que leves, lindas filigranasDesenha o sol na página deserta! Não sei que paisagista doidivanasMistura os tons… acerta… desacerta…Sempre em busca de nova descoberta,Vai colorindo as horas quotidianas… Jogos da luz dançando na folhagem!Do que eu ia escrever até me esqueço…Pra que pensar? Também sou da paisagem… Vago, solúvel no ar, fico sonhando…E me transmuto… iriso-me… estremeço…Nos leves dedos que me vão pintando! - [Santa Fé do Sul - Cidade Turística](https://blogdospoetas.com.br/santa-fe-do-sul-cidade-dos-encantos/): Santa Fé do Sul, cidade querida,onde a natureza enfeita a vida.Entre rios e praias de sol radiante,teu charme encanta cada visitante. Nas águas calmas do Paraná,o reflexo do céu vem te abraçar.Turista que chega sente o calor,de um povo simples, cheio de amor. Praia Artificial, cenário perfeito,onde o sorriso vem do peito.Nas tardes douradas, o vento a soprar,e o pôr do sol vem te saudar. Natal das Luzes, festa e emoção,brilho que aquece cada coração.E em cada canto, uma história a contar,de quem te ama sem precisar falar. Santa Fé do Sul, joia do interior,cidade turística, cheia de cor.Quem vem… Pescar - [Armário](https://blogdospoetas.com.br/armario/): Eu queria, senhora, ser o seu armárioe guardar os seus tesouros como um corsárioQue coisa louca:ser seu guarda-roupa!Alguma coisa sólida, circunspecta e pesadanessa sua vida tão estabanada.Um amigo de lei(de que madeira eu não sei)Um sentinela do seu leitocom todo o respeito.Ah, ter gavetinhaspara suas argolinhasTer um vãopara seu camisolãoe sentir o seu cheiro,senhora, o dia inteiroMeus nichoscomo bichosengoliriam suas meias-calças,seus soutiens sem alças,e tirariam nacosdos seus casacos,E no meu chão, como trufas,as suas pantufas…Seus echarpes, seus jeans,seus longos e afinsSeus trastese contrastes.Aquele vestido com asae aquele de andar em casa.Um turbante antigo.Um pulôver amigo.Bonecas de pano.Um brinco cigano.Um chapéu… Pescar - [Declaração de Amor](https://blogdospoetas.com.br/declaracao-de-amor/): Tentei dizer quanto te amava, aquela vez, baixinhomas havia um grande berreiro, um enorme burburinhoe, pensando bem, o berçário não era o melhor lugar.Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,cada um recém-chegadovocê sem saber ouvir,eu sem saber falar. Tentei de novo, lembro bem, na escola.Um PS no bilhete pedindo colainterceptado pela professora como um gavião.Fui parar na sala da diretora e depois na ruaenquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.A vida é curta, longa é a paixão. Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:“Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo”E você não disse nada.… Pescar - [A Invenção do “O”](https://blogdospoetas.com.br/a-invencao-do-o/): Na era da pedra lascadada língua faladaantes de inventarem a letraque imitava a luaas palavras diziam nadae nada levava a nada(aliás, nem precisava rua).A frase ficava estáticade maneira majestáticaa grandes falas presumíveispermaneciam indizíveis– imagens invisíveisa distâncias invencíveis.Vivia-se em cavernas mentaisnuma inércia dramática.Ir e vir, nem pensarninguém mudava de lugarque dirá de sintática.Aí inventaram o “O”e foi algo portentoso.Assombroso, maravilhoso.Tudo começou a rolare a se movimentar.O Homem ganhou “horizontes”e palavras viraram pontese hoje existe a convicçãoque sem a sua invençãonão haveria Civilização.Um dia, como o raio inauguralsobre aquela célula no pantanalque deu vida a tudo,veio o acento agudo.E o homem pôde… Pescar - [Tu e Eu](https://blogdospoetas.com.br/tu-e-eu/): Somos diferentes, tu e eu.Tens forma e graçae a sabedoria de só saber cresceraté dar pé.Eu não sei onde quero chegare só sirvo para uma coisa– que não sei qual é!És de outra pipae eu de um cripto.Tu,lipaEu,calipto. Gostas de um som tempestaderoque lenhamuito heavyPrefiro o barroco italianoe dos alemãeso mais leve.És vidrada no Lobãoeu sou mais albônico.Tu,fão.Eu,fônico. És suculentae selvagemcomo uma fruta do trópicoEu já sequeie me resigneicomo um socialista utópico.Tu não tens nada de mimeu não tenho nada teu.Tu,piniquim.Eu,ropeu. Gostas daquelas festasque começam mal e terminam pior.Gosto de graves rituaisem que sou pertinentee, ao mesmo tempo, o prior.Tu… Pescar - [Quem Sabe?](https://blogdospoetas.com.br/quem-sabe/): Diz a mecânica quânticaque as partículas atômicasse comportam de um jeitoquando são observadase de outro quando estão sós(como, aliás, todos nós).E quem nos asseguraque o Universo que está aínão é como aí estáquando ninguém está olhando?E que quando os astrônomosse viram do telescópiopara a pranchetao Universo não fazuma careta?O corpo e a mentetêm biografias separadas,cada um sua memória própria,seu próprio jogo de charadas,Meu corpo tem lembranças– cheiros, tiques, andanças –que a mente não registroue o corpo não tem as marcasde metade do que a mente passou(Pior que uma mente insananum corpo sem muito assuntoé um corpo que já foi ao… Pescar - [Reflexões no Espelho](https://blogdospoetas.com.br/reflexoes-no-espelho/): Por onde anda a gente anda quando dormepra acordar com esta cara disformede quem fez o que não devia?E este gosto na gargantaé o resto de que jantade que secreta ambrostiade que gim ou malvasia?E se só estivemos no leitocom este olhar de pouco assunto?Pra onde vai meu ser noturnopra me deixar assim soturno– e por que não me leva junto? poesia numa hora dessas ?! - [A Montanha](https://blogdospoetas.com.br/a-montanha/): Calma, entre os ventos, em lufadas cheiasDe um vago sussurrar de ladainha,Sacerdotisa em prece, o vulto alteiasDo vale, quando a noite se avizinha: Rezas sobre os desertos e as areias,Sobre as florestas e a amplidão marinha;E, ajoelhadas, rodeiam-te as aldeias,Mudas servas aos pés de uma rainha. Ardes, num holocausto de ternura…E abres, piedosa, a solidão braviaPara as águias e as nuvens, a acolhê-las; E invades, como um sonho, a imensa altura,– Última a receber o adeus do dia,Primeira a ter a bênção das estrelas! - [Epigrama do Espelho Infiel](https://blogdospoetas.com.br/epigrama-do-espelho-infiel/): Entre o desenho do meu rostoe o seu reflexo,meu sonho agoniza, perplexo. Ah! pobres linhas do meu rosto,desmanchadas do lado oposto,e sem nexo! E a lágrima do seu desgostosumida no espelho convexo! - [Explicação](https://blogdospoetas.com.br/explicacao/): O pensamento é triste; o amor insuficiente;e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.Deixo que a terra me sustente:guardo o resto para mais tarde. Deus não fala comigo- e eu sei que me conhece.A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.A estrela sobe, a estrela desce…– espero a minha própria vinda. ( navego pela memóriasem margens. alguém conta a minha históriae alguém mata os personagens. ) - [Fio](https://blogdospoetas.com.br/fio/): No fio da respiração,rola a minha vida monótona,rola o peso do meu coração. Tu não vês o jogo perdendo-secomo as palavras de uma canção. Passas longe, entre nuvens rápidas,com tantas estrelas na mão… – Para que serve o fio trêmuloem que rola o meu coração? - [Aluna](https://blogdospoetas.com.br/aluna/): Conservo-te o meu sorrisopara, quando me encontrares,veres que ainda tenho uns aresde aluna do paraíso… Leva sempre a minha imagema submissa rebeldiados que estudam todo o diasem chegar à aprendizagem… – e, de salas interiores,por altíssimas janelas,descobrem coisas mais belas,rindo-se dos professores… Gastarei meu tempo inteironessa brincadeira triste;mas na escola não existemais do que pena e tinteiro! E toda a humana docênciapara inventar-me um ofícioou morre sem exercícioou se perde na experiência… - [Velho Estilo](https://blogdospoetas.com.br/velho-estilo/): Coisa que passas, como é teu nome?De que inconstância foste gerada?Abri meus braços para alcançar-te:fechei meus braços, – não tinha nada! De ti só resta o que se consome.Vais para a morte? Vais para a vida?Tua presença nalguma parteÉ já sinal da tua partida. E eu disse a todos desse teu fado,Para esquecerem do teu chamamento,Saberem que eras constituídaDa errante essência da água e do vento. Todos quiseram ter-te, malgrado,Prenúncios tantos, tantas ameaças,Grande, adorada desconhecida,Como é teu nome, coisa que passas? Pisando terras e firmamento,Com um ar de exausta gente dormida,Abandonaram termos tranqüilos,Portas abertas, áreas da vida. E eu, que… Pescar - [Murmúrio](https://blogdospoetas.com.br/murmurio/): Traze-me um pouco das sombras serenasQue as nuvens transportam por cima dos diasUm pouco de sombra, apenas,– vê que nem te peço alegria Traze-me um pouco da alvura dos luaresque a morte sustenta no seu coraçãoA alvura, apenas, dos ares:– vê que nem te peço ilusão. Traze-me um pouco da tua lembrançaaroma perdido, saudade da flor!– Vê que nem te digo – esperança!– Vê que nem sequer sonho – amor! - [Timidez](https://blogdospoetas.com.br/timidez/): Basta-me um pequeno gesto,feito de longe e de leve,para que venhas comigoe eu para sempre te leve…– mas só esse eu não farei. Uma palavra caídadas montanhas dos instantesdesmancha todos os marese une as terras mais distantes…– palavra que não direi. Para que tu me adivinhes,entre os ventos taciturnos,apago meus pensamentos,ponho vestidos noturnos,– que amargamente inventei. E, enquanto não me descobres,os mundos vão navegandonos ares certos do tempo,até não se sabe quando…– e um dia eu me acabarei. - [Discurso](https://blogdospoetas.com.br/discurso/): E aqui estou, cantando. Um poeta é sempre irmão do vento e da água:deixa seu ritmo por onde passa. Venho de longe e vou para longe:mas procurei pelo chão os sinais do meu caminhoe não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram. Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,mas houve sempre muitas nuvens.E suicidaram-se os operários de Babel. Pois aqui estou, cantando. Se eu nem sei onde estou,como posso esperar que algum ouvido me escute? Ah! se eu nem sei quem sou,como posso esperar que venha alguém gostar de mim? - [Desejo](https://blogdospoetas.com.br/desejo/): Ah! que eu não morra sem provar, ao menosSequer por um instante, nesta vidaAmor igual ao meu!Dá, Senhor Deus, que eu sobre a terra encontreUm anjo, uma mulher, uma obra tua,Que sinta o meu sentir;Uma alma que me entenda, irmã da minha,Que escute o meu silêncio, que me sigaDos ares na amplidão!Que em laço estreito unidas, juntas, presas,Deixando a terra e o lodo, aos céus remontemNum êxtase de amor! - [Soneto](https://blogdospoetas.com.br/soneto/): Pensas tu, bela Anarda, que os poetasVivem d’ar, de perfumes, d’ambrosia?Que vagando por mares d’harmoniaSão melhores que as próprias borboletas? Não creias que eles sejam tão patetas.Isso é bom, muito bom mas em poesia,São contos com que a velha o sono criaNo menino que engorda a comer petas! Talvez mesmo que algum desses brejeirosTe diga que assim é, que os dessa genteNão são lá dos heróis mais verdadeiros. Eu que sou pecador, — que indiferenteNão me julgo ao que toca aos meus parceiros,Julgo um beijo sem fim cousa excelente. - [Canção do Tamoio](https://blogdospoetas.com.br/cancao-do-tamoio/): INão chores, meu filho;Não chores, que a vidaÉ luta renhida:Viver é lutar.A vida é combate,Que os fracos abate,Que os fortes, os bravosSó pode exaltar. IIUm dia vivemos!O homem que é forteNão teme da morte;Só teme fugir;No arco que entesaTem certa uma presa,Quer seja tapuia,Condor ou tapir. IIIO forte, o cobardeSeus feitos invejaDe o ver na pelejaGarboso e feroz;E os tímidos velhosNos graves conselhos,Curvadas as frontes,Escutam-lhe a voz! IVDomina, se vive;Se morre, descansaDos seus na lembrança,Na voz do porvir.Não cures da vida!Sê bravo, sê forte!Não fujas da morte,Que a morte há de vir! VE pois que és meu filho,Meus brios reveste;Tamoio… Pescar - [Pedido](https://blogdospoetas.com.br/pedido/): Ontem no baileNão me atendias!Não me atendias,Quando eu falava. De mim bem longeTeu pensamento!Teu pensamento,Bem longe errava. Eu vi teus olhosSobre outros olhos!Sobre outros olhos,Que eu odiava. Tu lhe sorristeCom tal sorriso!Com tal sorriso,Que apunhalava. Tu lhe falasteCom voz tão doce!Com voz tão doce,Que me matava. Oh! não lhe fales,Não lhe sorrias,Se então só qu’riasExp’rimentar-me. Oh! não lhe fales,Não lhe sorrias,Não lhe sorrias,Que era matar-me. - [Doce Amor](https://blogdospoetas.com.br/doce-amor/): Doce Amor – a sorrir-se brandamenteEm sonhos me falou com tal brandura,Que eu só de o escutar vida mais puraSenti coar-me n’alma fundamente. Depois tornou-se o tredo fogo ardenteQue o instante, o ano, a vida me tortura.Bem longe de gozar tanta ventura,Cresta-me o rosto agora o pranto quente. Homem, se homem és no sentimento,Não zombes, não, de mim tão desditosa,Nem seja o teu alívio o meu tormento. Deixa-me a teus pés cair chorosa,Soltar no extremo pranto o extremo alento,Que eu morrendo a teus pés serei ditosa. - [Canção do Exílio](https://blogdospoetas.com.br/cancao-do-exilio/): “Minha terra tem palmeiras,Onde canta o Sabiá;As aves, que aqui gorjeiam,Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas,Nossas várzeas têm mais flores,Nossos bosques têm mais vida,Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite,Mais prazer encontro eu lá;Minha terra tem palmeiras,Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores,Que tais não encontro eu cá;Em cismar — sozinho, à noite —Mais prazer encontro eu lá;Minha terra tem palmeiras,Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra,Sem que eu volte para lá;Sem que desfrute os primoresQue não encontro por cá;Sem qu’inda aviste as palmeiras,Onde canta o Sabiá.” - [Se se morre de amor](https://blogdospoetas.com.br/se-se-morre-de-amor/): Se se morre de amor! – Não, não se morre,Quando é fascinação que nos surpreendeDe ruidoso sarau entre os festejos;Quando luzes, calor, orquestra e floresAssomos de prazer nos raiam n’alma,Que embelezada e solta em tal ambienteNo que ouve e no que vê prazer alcança! Simpáticas feições, cintura breve,Graciosa postura, porte airoso,Uma fita, uma flor entre os cabelos,Um quê mal definido, acaso podemNum engano d’amor arrebentar-nos.Mas isso amor não é; isso é delírioDevaneio, ilusão, que se esvaeceAo som final da orquestra, ao derradeiro Clarão, que as luzes ao morrer despedem:Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,D’amor igual ninguém sucumbe… Pescar - [Último Carnaval](https://blogdospoetas.com.br/ultimo-carnaval/): Íncola de Suburra ou de Sibáris,Nasceste em saturnal; viveste, estulto,Na folia das feiras, no tumultoDos caravançarás e dos bazares; Morreste, em plena orgia, entre os esgaresDos arlequins, no delirante culto:E a saudade terás, depois sepulto,Herói folião, dos carnavais hilares… Talvez, quem sabe? a cova, que te esconda,Uma noite, entre fogos-fátuos, se abra,Como uma boca escancarada em risos: E saltarás, pinchando, numa rondaDe espectros aos tantãs, dança macabraDe esqueletos e lêmures aos guizos… - [No descomeço era o verbo](https://blogdospoetas.com.br/no-descomeco-era-o-verbo/): No descomeço era o verbo.Só depois é que veio o delírio do verbo.O delírio do verbo estava no começo, lá, onde a criança diz:eu escuto a cor dos passarinhos.A criança não sabe que o verbo escutar nãoFunciona para cor, mas para som.Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.E pois.Em poesia que é voz de poeta,que é a vozDe fazer nascimentos –O verbo tem que pegar delírio. - [Aos que Sonham](https://blogdospoetas.com.br/aos-que-sonham/): Não se pode sonhar impunementeUm grande sonho pelo mundo afora,Porque o veneno humano não demoraEm corrompê-lo na íntima semente… Olhando no alto a árvore excelente,Que os frutos de ouro esplêndidos enflora,O Sonhador não vê, e até ignoraA cilada rasteira da Serpente. Queres sonhar? Defende-te em segredo,E lembra, a cada instante e a cada dia,O que sempre acontece e aconteceu: Prometeu e o abutre no rochedo,O calvário do filho de MariaE a cicuta que Sócrates bebeu! - [Sei de Tudo](https://blogdospoetas.com.br/sei-de-tudo/): Sei de tudo o que existe pelo mundo.A forma, o modo, o espírito e os destinos.Sei da vida das almas e aprofundoO mistério dos seres pequeninos. Sei da ciência do Espaço, sei o fundoDa terra e os grandes mundos submarinos,Sei o Sol, sei o Som e o elo profundoQue há entre os passos humanos e os divinos. Sei de todas as cousas, a teoriaDo Universo e as longínquas perspectivasQue emergem da expressão das cousas vivas. Sei de tudo e – oh! tristíssima ironia! –Pelo caminho eterno por que vou,Eu, que sei tudo, só não sei quem sou… - [Decadência](https://blogdospoetas.com.br/decadencia/): Afinal, é o costume de viverQue nos faz ir vivendo para a frente;Nenhuma outra intenção, mas simplesmenteO hábito melancólico de ser… Vai-se vivendo… é o vício de viver…E se esse vício dá qualquer prazer à gente,Como todo prazer vicioso é triste e doente,Porque o Vício é a doença do Prazer… Vai-se vivendo… vive-se demais,E um dia chega em que tudo que somosÉ apenas a saudade do que fomos… Vai-se vivendo… e muitas vezes nem sabemosQue somos sombras, que já não somos maisDo que os sobreviventes de nós mesmos!… - [Ingratidão](https://blogdospoetas.com.br/ingratidao/): Nunca mais me esqueci!… Eu era criançaE em meu velho quintal, ao sol-nascente,Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,Uma linda amendoeira adolescente. Era a mais rútila e íntima esperança…Cresceu… cresceu… e aos poucos, suavemente,Pendeu os ramos sobre um muro em frenteE foi frutificar na vizinhança… Daí por diante, pela vida inteira,Todas as grandes árvores que em minhasTerras, num sonho esplêndido semeio, Como aquela magnífica amendoeira,E florescem nas chácaras vizinhasE vão dar frutos no pomar alheio… - [Velha Natureza](https://blogdospoetas.com.br/velha-natureza/): Tudo que a velha Natureza geraVai sempre rumo do melhor futuro;Ela fecunda com o ânimo seguroDe quem muito medita e delibera… O seu gênio de artista mais se esmeraNa teoria sutil do claro-escuro,Com que exalta a verdade mais austera,Frisando em tudo o símbolo mais puro… Só faz o Mau e o Hediondo para efeitoDe projetar mais longe e sem nuanceA alma cheia de luz do que é perfeito, Como cavou o Abismo nas entranhas,Para dar mais relevo e mais alcanceÀ soberba estatura das montanhas… - [História Antiga](https://blogdospoetas.com.br/historia-antiga/): No meu grande otimismo de inocente,Eu nunca soube por que foi… um dia,Ela me olhou indiferentemente,Perguntei-lhe por que era… Não sabia… Desde então, transformou-se de repenteA nossa intimidade correntiaEm saudações de simples cortesiaE a vida foi andando para frente… Nunca mais nos falamos… vai distante…Mas, quando a vejo, há sempre um vago instanteEm que seu mudo olhar no meu repousa, E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,Mas que é tarde demais para dizê-la… - [Digestão](https://blogdospoetas.com.br/digestao/): A couve mineira tem gosto de bife inglêsDepois do café e da pingaO gozo de acender a palhaEnrolando o fumoDe Barbacena ou de GoiásCigarro cavadoConversa sentada - [Poema da Cachoeira](https://blogdospoetas.com.br/poema-da-cachoeira/): É a mesma estação rente do tremToda de pedra furadinhaMeu pai morou alguns anos aquiTrabalhandoUm dia liquidouAtivo passivoCinco galinhasE deram-lhe uma passagem de presentePara que eu nascesse em São PauloComo não houvesse estrada de rodagemEle foi na de ferroComprando frutas pelo caminho - [Balada do Esplanada](https://blogdospoetas.com.br/balada-do-esplanada/): Ontem à noiteEu procureiVer se aprendiaComo é que se faziaUma baladaAntes de irPro meu hotel. É que esteCoraçãoJá se cansouDe viver sóE quer entãoMorar contigoNo Esplanada. Eu qu’riaPoderEncherEste papelDe versos lindosÉ tão distintoSer menestrel No futuroAs geraçõesQue passariamDiriamÉ o hotelDo menestrel Pra m’inspirarAbro a janelaComo um jornalVou fazerA baladaDo EsplanadaE ficar sendoO menestrelDe meu hotel Mas não há poesiaNum hotelMesmo sendo‘SplanadaOu Grand-Hotel Há poesiaNa dorNa florNo beija-florNo elevador - [Alerta](https://blogdospoetas.com.br/alerta/): Lá vem o lança-chamasPega a garrafa de gasolinaAtiraEles querem matar todo amorCorromper o póloEstancar a sede que eu tenho doutro serVem do flanco, de ladoPor cima, por trásAtiraAtiraResisteDefendeDe péDe péDe péO futuro será de toda a humanidade. - [Canto de regresso à pátria](https://blogdospoetas.com.br/canto-de-regresso-a-patria/): Minha terra tem palmaresOnde gorjeia o marOs passarinhos daquiNão cantam como os de láMinha terra tem mais rosasE quase que mais amoresMinha terra tem mais ouroMinha terra tem mais terraOuro terra amor e rosasEu quero tudo de láNão permita Deus que eu morraSem que volte para láNão permita Deus que eu morraSem que volte pra São PauloSem que veja a Rua 15E o progresso de São Paulo. - [A descoberta](https://blogdospoetas.com.br/a-descoberta/): Seguimos nosso caminho por este mar de longoAté a oitava da PáscoaTopamos avesE houvemos vista de terraos selvagensMostraram-lhes uma galinhaQuase haviam medo delaE não queriam por a mãoE depois a tomaram como espantadosprimeiro cháDepois de dançaremDiogo DiasFez o salto realas meninas da gareEram três ou quatro moças bem moças e bem gentisCom cabelos mui pretos pelas espáduasE suas vergonhas tão altas e tão saradinhasQue de nós as muito bem olharmosNão tínhamos nenhuma vergonha. - [Pronominais](https://blogdospoetas.com.br/pronominais/): Dê-me um cigarroDiz a gramáticaDo professor e do alunoE do mulato sabidoMas o bom negro e o bom brancoDa Nação BrasileiraDizem todos os diasDeixa disso camaradaMe dá um cigarro - [Risco](https://blogdospoetas.com.br/risco/): Um poema livreda gramática, do somdas palavraslivrede traços Um poema irmãode outros poemasque bebem a correntezae brilhampedras ao sol Um poemasem o gostode minha bocalivre da marcade dentes em seu dorsoUm poema nascidonas esquinas nos muroscom palavras pobrescom palavras podreseque de tão livre traga em si a decisãode ser escrito ou não - [Inscrição](https://blogdospoetas.com.br/inscricao/): Aqui, sob esta pedra, onde o orvalho roreja,Repousa, embalsamado em óleos vegetais,O alvo corpo de quem, como uma ave que adeja,Dançava descuidosa, e hoje não dança mais… Quem não a viu é bem provável que não vejaOutro conjunto igual de partes naturais.Os véus tinham-lhe ciúme. Outras, tinham-lhe inveja.E ao fitá-la os varões tinham pasmos sensuais. A morte a surpreendeu um dia que sonhava.Ao pôr do sol, desceu entre sombras fiéisÀ terra, sobre a qual tão de leve pesava… Eram as suas mãos mais lindas sem anéis…Tinha os olhos azuis… Era loura e dançava…Seu destino foi curto e bom… – Não… Pescar - [Torcer](https://blogdospoetas.com.br/torcer/): Mesmo antes de nascer, já tinha alguém torcendo por você.gente que torcia para você ser menino.Outros torciam para você ser menina.Torciam para você puxar a beleza da mãe, o bom humor do pai.Estavam torcendo para você nascer perfeito.Daí continuaram torcendo.Torceram pelo seu primeiro sorriso, pela primeira palavra, pelo primeiro passo.O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida.E o primeiro gol, então? E de tanto torcerem por você, você aprendeu a torcer.Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel.Torcia o nariz para o quiabo e a escarola.Mas torcia por hambúrguer e refrigerante.Começou a torcer até para… Pescar - [Sentimento do Mundo](https://blogdospoetas.com.br/sentimento-do-mundo/): Tenho apenas duas mãose o sentimento do mundo,mas estou cheio de escravos,minhas lembranças escorreme o corpo transigena confluência do amor. Quando me levantar, o céuestará morto e saqueado,eu mesmo estarei morto,morto meu desejo, mortoo pântano sem acordes. Os camaradas não disseramque havia uma guerrae era necessáriotrazer fogo e alimento.Sinto-me disperso,anterior a fronteiras,humildemente vos peçoque me perdoeis. Quando os corpos passarem,eu ficarei sozinhodesfiando a recordaçãodo sineiro, da viúva e do microcopistaque habitavam a barracae não foram encontradosao amanhecer esse amanhecermais noite que a noite. - [Ao Amor Antigo](https://blogdospoetas.com.br/ao-amor-antigo/): O amor antigo vive de si mesmo,Não de cultivo alheio ou de presença.Nada exige nem pede. Nada espera,Mas do destino vão nega a sentença. O amor antigo tem raízes fundas,Feitas de sofrimento e de beleza.Por aquelas mergulha no infinito,E por estas suplanta a natureza. Se em toda parte o tempo desmoronaAquilo que foi grande e deslumbrante,O antigo amor, porém, nunca feneceE a cada dia surge mais amante. Mais ardente, mas pobre de esperança.Mais triste? Não. Ele venceu a dor,E resplandece no seu canto obscuro,Tanto mais velho quanto mais amor. - [A Casa do Tempo Perdido](https://blogdospoetas.com.br/a-casa-do-tempo-perdido/): Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.Bati segunda vez e mais outra e mais outra.Resposta nenhuma.A casa do tempo perdido está coberta de heraPela metade; a outra metade são cinzas.Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamandoPela dor de chamar e não ser escutado.Simplesmente bater. O eco devolveMinha ânsia de entreabrir esses paços gelados.A noite e o dia se confundem no esperar,No bater e bater. O tempo perdido certamente não existe.É o casarão vazio e condenado. - [Verdade](https://blogdospoetas.com.br/verdade/): A porta da verdade estava aberta,mas só deixava passarmeia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade,porque a meia pessoa que entravasó trazia o perfil de meia verdade.E sua segunda metadevoltava igualmente com meio perfil.E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.Chegaram ao lugar luminosoonde a verdade esplendia seus fogos.Era dividida em metadesdiferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.Nenhuma das duas era totalmente bela.E carecia optar. Cada um optou conformeseu capricho, sua ilusão, sua miopia. - [Não Passou](https://blogdospoetas.com.br/nao-passou/): Passou?Minúsculas eternidadesdeglutidas por mínimos relógiosRessoam na mente cavernosa. Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.A mão- a tua mão, nossas mãos-rugosas, têm o antigo calorde quando éramos vivos. Éramos? Hoje somos mais vivos do que nunca.Mentira, estarmos sós.Nada, que eu sinta, passa realmente.É tudo ilusão de ter passado. - [Acordar, Viver](https://blogdospoetas.com.br/acordar-viver/): Como acordar sem sofrimento?Recomeçar sem horror?O sono transportou-meàquele reino onde não existe vidae eu quedo inerte sem paixão. Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,a fábula inconclusa,suportar a semelhança das coisas ásperasde amanhã com as coisas ásperas de hoje? Como proteger-me das feridasque rasga em mim o acontecimento,qualquer acontecimentoque lembra a Terra e sua púrpurademente?E mais aquela ferida que me inflijoa cada hora, algozdo inocente que não sou? Ninguém responde, a vida é pétrea. - [Um Chamado João](https://blogdospoetas.com.br/um-chamado-joao/): João era fabulistafabulosofábula?Sertão místico disparandono exílio da linguagem comum? “Projetava na gravatinhaa quinta face das coisasinenarrável narrada?Um estranho chamado Joãopara disfarçar, para farçaro que não ousamos compreender?” Tinha pastos, buritis plantadosno apartamento?no peito?Vegetal ele era ou passarinhosob a robusta ossatura com pintade boi risonho? Era um teatroe todos os artistasno mesmo papel,ciranda multívoca? João era tudo?tudo escondido, florindocomo flor é flor, mesmo não semeada?Mapa com acidentesdeslizando para fora, falando?Guardava rios no bolsocada qual em sua cor de águasem misturar, sem conflitar? E de cada gota redigianome, curva, fim,e no destinado geralseu fado era saberpara contar sem desnudaro que não deve… Pescar - [Canção Amiga](https://blogdospoetas.com.br/cancao-amiga/): Eu preparo uma cançãoem que minha mãe se reconheça,todas as mães se reconheçam,e que fale como dois olhos. Caminho por uma ruaque passa em muitos países.Se não me vêem, eu vejoe saúdo velhos amigos. Eu distribuo um segredocomo quem ama ou sorri.No jeito mais naturaldois carinhos se procuram. Minha vida, nossas vidasformam um só diamante.Aprendi novas palavrase tornei outras mais belas. Eu preparo uma cançãoque faça acordar os homense adormecer as crianças. - [As Sem-Razões do Amor](https://blogdospoetas.com.br/as-sem-razoes-do-amor/): Eu te amo porque te amo.Não precisas ser amante,e nem sempre sabes sê-lo.Eu te amo porque te amo.Amor é estado de graçae com amor não se paga. Amor é dado de graça,é semeado no vento,na cachoeira, no eclipse.Amor foge a dicionáriose a regulamentos vários. Eu te amo porque não amobastante ou demais a mim.Porque amor não se troca,não se conjuga nem se ama.Porque amor é amor a nada,feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte,e da morte vencedor,por mais que o matem (e matam)a cada instante de amor - [A Um Ausente](https://blogdospoetas.com.br/a-um-ausente/): Tenho razão de sentir saudade,tenho razão de te acusar.Houve um pacto implícito que rompestee sem te despedires foste embora.Detonaste o pacto.Detonaste a vida geral, a comum aquiescênciade viver e explorar os rumos de obscuridadesem prazo sem consulta sem provocaçãoaté o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora.Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.Que poderias ter feito de mais gravedo que o ato sem continuação, o ato em si,o ato que não ousamos nem sabemos ousarporque depois dele não há nada? Tenho razão para sentir saudade de ti,de nossa convivência em falas camaradas,simples apertar de mãos, nem isso,… Pescar - [Os Ombros Suportam o Mundo](https://blogdospoetas.com.br/os-ombros-suportam-o-mundo/): Chega um tempo em que não se diz mais: meuDeus.Tempo de absoluta depuração.Tempo em que não se diz mais: meu amor.Porque o amor resultou inútil.E os olhos não choram.E as mãos tecem apenas o rude trabalho.E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.Ficaste sozinho, a luz apagou-se,mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.És todo certeza, já não sabes sofrer.E nada esperas de teus amigos. Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?Teus ombros suportam o mundoe ele não pesa mais que a mão de uma criança.As guerras, as fomes, as discussões dentro dosedifíciosprovam apenas… Pescar - [Soneto do Passáro](https://blogdospoetas.com.br/soneto-do-passaro/): Amar um passarinho é coisa louca.Gira livre na longa azul gaiolaque o peito me constringe, enquanto a poucaliberdade de amar logo se evola. É amor meação? pecúlio? esmola?Uma necessidade urgente e roucade no amor nos amarmos se desolaem cada beijo que não sai da boca. O passarinho baixa a nosso alcance,e na queda submissa um vôo segue,e prossegue sem asas, pura ausência, outro romance ocluso no romance.Por mais que amor transite ou que se negue,é canto (não é ave) sua essência. - [Congresso Internacional do Medo](https://blogdospoetas.com.br/congresso-internacional-do-medo/): Provisoriamente não cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,não cantaremos o ódio porque esse não existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,depois morreremos de medosobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas. - [Confissão](https://blogdospoetas.com.br/confissao/): Não amei bastante meu semelhante,não catei o verme nem curei a sarna.Só proferi algumas palavras,melodiosas, tarde, ao voltar da festa. Dei sem dar e beijei sem beijo.(Cego é talvez quem esconde os olhosembaixo do catre.) E na meia-luztesouros fanam-se, os mais excelentes. Do que restou, como compor um homeme tudo que ele implica de suave,de concordâncias vegetais, murmúriosde riso, entrega, amor e piedade? Não amei bastante sequer a mim mesmo,contudo próximo. Não amei ninguém.Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –que se esfacelou na asa do avião. - [Poema que Aconteceu](https://blogdospoetas.com.br/poema-que-aconteceu/): Nenhum desejo neste domingonenhum problema nesta vidao mundo parou de repenteos homens ficaram caladosdomingo sem fim nem começo. A mão que escreve este poemanão sabe o que está escrevendomas é possível que se soubessenem ligasse. - [Amar](https://blogdospoetas.com.br/amar/): Que pode uma criatura senão,entre criaturas, amar?amar e esquecer,amar e malamar,amar, desamar, amar?sempre, e até de olhos vidrados, amar? Que pode, pergunto, o ser amoroso,sozinho, em rotação universal, senãorodar também, e amar?amar o que o mar traz à praia,e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto,o que é entrega ou adoração expectante,e amar o inóspito, o áspero,um vaso sem flor, um chão de ferro,e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina. Este o nosso destino: amor… Pescar - [Ausência](https://blogdospoetas.com.br/ausencia-2/): Por muito tempo achei que a ausência é falta.E lastimava, ignorante, a falta.Hoje não a lastimo.Não há falta na ausência.A ausência é um estar em mim.E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,que rio e danço e invento exclamações alegres,porque a ausência, essa ausência assimilada,ninguém a rouba mais de mim. - [Mãos Dadas](https://blogdospoetas.com.br/maos-dadas/): Não serei o poeta de um mundo caduco.Também não cantarei o mundo futuro.Estou preso à vida e olho meus companheirosEstão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.Entre eles, considere a enorme realidade.O presente é tão grande, não nos afastemos.Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,a vida presente. - [Sonetilho do Falso Fernando Pessoa](https://blogdospoetas.com.br/sonetilho-do-falso-fernando-pessoa/): Onde nasci, morri.Onde morri, existo.E das peles que vistomuitas há que não vi. Sem mim como sem tiposso durar. Desistode tudo quanto é mistoe que odiei ou senti. Nem Fausto nem Mefisto,à deusa que se rideste nosso oaristo, eis-me a dizer: assistoalém, nenhum, aqui,mas não sou eu, nem isto. - [A palavra mágica](https://blogdospoetas.com.br/a-palavra-magica/): Certa palavra dorme na sombrade um livro raro.Como desencantá-la?É a senha da vidaa senha do mundo.Vou procurá-la.Vou procurá-la a vida inteirano mundo todo.Se tarda o encontro, se não a encontro,não desanimo,procuro sempre.Procuro sempre, e minha procuraficará sendominha palavra. - [Procura da Poesia](https://blogdospoetas.com.br/procura-da-poesia/): Não faças versos sobre acontecimentos.Não há criação nem morte perante a poesia.Diante dela, a vida é um sol estático,não aquece nem ilumina.As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.Não faças poesia com o corpo,esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escurosão indiferentes.Não me reveles teus sentimentos,que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia. Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.Não é… Pescar - [O Tempo Passa? Não Passa](https://blogdospoetas.com.br/o-tempo-passa-nao-passa/): O tempo passa? Não passano abismo do coração.Lá dentro, perdura a graçado amor, florindo em canção. O tempo nos aproximacada vez mais, nos reduza um só verso e uma rimade mãos e olhos, na luz. Não há tempo consumidonem tempo a economizar.O tempo é todo vestidode amor e tempo de amar. O meu tempo e o teu, amada,transcendem qualquer medida.Além do amor, não há nada,amar é o sumo da vida. São mitos de calendáriotanto o ontem como o agora,e o teu aniversárioé um nascer toda a hora. E nosso amor, que brotoudo tempo, não tem idade,pois só quem ama escutouo… Pescar - [Poesia](https://blogdospoetas.com.br/poesia/): Gastei uma hora pensando em um versoque a pena não quer escrever.No entanto ele está cá dentroinquieto, vivo.Ele está cá dentroe não quer sair.Mas a poesia deste momentoinunda minha vida inteira. - [Poema da Purificação](https://blogdospoetas.com.br/poema-da-purificacao/): Depois de tantos combateso anjo bom matou o anjo maue jogou seu corpo no rio. As água ficaram tintasde um sangue que não descoravae os peixes todos morreram. Mas uma luz que ninguém soubedizer de onde tinha vindoapareceu para clarear o mundo,e outro anjo pensou a feridado anjo batalhador. - [Entre o Ser e as Coisas](https://blogdospoetas.com.br/entre-o-ser-e-as-coisas/): Onda e amor, onde amor, ando indagandoao largo vento e à rocha imperativa,e a tudo me arremesso, nesse quandoamanhece frescor de coisa viva. As almas, não, as almas vão pairando,e, esquecendo a lição que já se esquivatornam amor humor, e vago e brandoo que é de natureza corrosiva. N’água e na pedra amor deixa gravadosseus hieróglifos e mensagens, suasverdades mais secretas e mais nuas. E nem os elementos encantadossabem do amor que os punge e que é, pungindo,uma fogueira a arder no dia findo. - [Canto Esponjoso](https://blogdospoetas.com.br/canto-esponjoso/): Belaesta manhã sem carência de mito,e mel sorvido sem blasfémia. Belaesta manhã ou outra possível,esta vida ou outra invenção,sem, na sombra, fantasmas. Umidade de areia adere ao pé.engulo o mar, que me engole.Valvas, curvos pensamentos, matizes da luzazulcompletasobre formas constituídas. Bela,a passagem do corpo, sua fusãono corpo geral do mundo.Vontade de cantar. Mas tão absolutaque me calo, repleto. - [Os Poderes Infernais](https://blogdospoetas.com.br/os-poderes-infernais/): O meu amor faísca na medula,pois que na superfície ele anoitece.Abre na escuridão sua quermesse.É todo fome, e eis que repele a gula. Sua escama de fel nunca se anulae seu rangido nada tem de prece.Uma aranha invisível é que o tece.O meu amor, paralisado, pula. Pulula, ulula. Salve, lobo triste!Quando eu secar, ele estará vivendo,já não vive de mim, nele é que existe o que sou, o que sobro, esmigalhado.O meu amor é tudo que, morrendo,não morre todo, e fica no ar, parado. - [O mundo é grande](https://blogdospoetas.com.br/o-mundo-e-grande/): O mundo é grande e cabenesta janela sobre o mar.O mar é grande e cabena cama e no colchão de amar.O amor é grande e cabeno breve espaço de beijar. - [Para Sempre](https://blogdospoetas.com.br/para-sempre/): Por que Deus permiteque as mães vão-se embora?Mãe não tem limite,é tempo sem hora,luz que não apagaquando sopra o ventoe chuva desaba,veludo escondidona pele enrugada,água pura, ar puro,puro pensamento.Morrer acontececom o que é breve e passasem deixar vestígio.Mãe, na sua graça,é eternidade.Por que Deus se lembra– mistério profundo –de tirá-la um dia?Fosse eu Rei do Mundo,baixava uma lei:Mãe não morre nunca,mãe ficará semprejunto de seu filhoe ele, velho embora,será pequeninofeito grão de milho. - [Receita de Ano Novo](https://blogdospoetas.com.br/receita-de-ano-novo/): Para você ganhar belíssimo Ano Novocor do arco-íris, ou da cor da sua paz,Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido(mal vivido talvez ou sem sentido)para você ganhar um anonão apenas pintado de novo, remendado às carreiras,mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;novo até no coração das coisas menos percebidas(a começar pelo seu interior)novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,mas com ele se come, se passeia,se ama, se compreende, se trabalha,você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,não precisa expedir nem receber mensagens(planta recebe mensagens?passa telegramas?) Não precisafazer lista de boas intençõespara arquivá-las na gaveta.Não precisa… Pescar - [Destruição](https://blogdospoetas.com.br/destruicao/): Os amantes se amam cruelmentee com se amarem tanto não se veem.Um se beija no outro, refletido.Dois amantes que são? Dois inimigos. Amantes são meninos estragadospelo mimo de amar: e não percebemquanto se pulverizam no enlaçar-se,e como o que era mundo volve a nada. Nada, ninguém. Amor, puro fantasmaque os passeia de leve, assim a cobrase imprime na lembrança de seu trilho. E eles quedam mordidos para sempre.Deixaram de existir, mas o existidocontinua a doer eternamente. - [Metade](https://blogdospoetas.com.br/metade/): Eu perco o chãoEu não acho as palavrasEu ando tão tristeEu ando pela salaEu perco a horaEu chego no fimEu deixo a porta abertaEu não moro mais em mimEu perco as chaves de casaEu perco o freioEstou em milhares de cacosEu estou ao meioOnde será que você está agora? - [Mentiras](https://blogdospoetas.com.br/mentiras/): Nada ficou no lugarEu quero quebrar essas xícarasEu vou enganar o diaboEu quero acordar sua família Eu vou escrever no seu muroE violentar o seu gostoEu quero roubar no seu jogoEu já arranhei os seus discos Que é pra ver se voltaQue é pra ver se você vemQue é pra ver se você olhaPra mim Nada ficou no lugarEu quero entregar suas mentirasEu vou invadir sua aulaQueria falar sua língua Eu vou publicar seus segredosEu vou mergulhar sua guiaEu vou derramar nos seus planosO resto da minha alegria Que é pra ver se você voltaQue é pra ver se você… Pescar - [Uns Versos](https://blogdospoetas.com.br/uns-versos/): Sou sua noite, sou seu quartoSe você quiser dormirEu me despeçoEu em pedaçosComo um silêncio ao contrárioEnquanto esperoEscrevo uns versosDepois rasgoSou seu fado, sou seu bardoSe você quiser ouvirO seu eunuco, o seu sopranoUm seu arautoEu sou o sol da sua noite em claro, um rádioEu sou pelo avesso sua peleO seu casacoSe você vai sairO seu asfaltoSe você vai sairEu chovoSobre o seu cabelopelo seu itinerárioSou eu o seu paradeiroEm uns versos que eu escrevoDepois rasgo - [O Bandolim](https://blogdospoetas.com.br/o-bandolim/): Cantas, soluças, bandolim do FadoE de Saudade o peito meu transbordas;Choras, e eu julgo que nas tuas cordas,Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d’um desgraçado,Um dia morto da Ilusão as bordas,Tanto que cantas, e ilusões acordas,Tanto que gemes, bandolim do Fado. Quando alta noite, a lua é fria e calma,Teu canto vindo de profundas fráguas,É como as nênias do Coveiro d’alma! Tudo eterizas num coral de endechas…E vais aos poucos soluçando mágoas,E vais aos poucos soluçando queixas! - [Espaço Curvo e Finito](https://blogdospoetas.com.br/espaco-curvo-e-finito/): Oculta consciência de não ser,Ou de ser num estar que me transcende,Numa rede de presençasE ausências,Numa fuga para o ponto de partida:Um perto que é tão longe,Um longe aqui. Uma ânsia de estar e de temerA semente que de ser se surpreende,As pedras que repetem as cadênciasDa onda sempre nova e repetidaQue neste espaço curvo vem de ti. - [Poema À Boca Fechada](https://blogdospoetas.com.br/poema-a-boca-fechada/): Não direi:Que o silêncio me sufoca e amordaça.Calado estou, calado ficarei,Pois que a língua que falo é de outra raça. Palavras consumidas se acumulam,Se represam, cisterna de águas mortas,Ácidas mágoas em limos transformadas,Vaza de fundo em que há raízes tortas. Não direi:Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,Palavras que não digam quanto seiNeste retiro em que me não conhecem. Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,Nem só animais bóiam, mortos, medos,Túrgidos frutos em cachos se entrelaçamNo negro poço de onde sobem dedos. Só direi,Crispadamente recolhido e mudo,Que quem se cala quando me caleiNão poderá morrer sem dizer… Pescar - [Retrato do Poeta Quando Jovem](https://blogdospoetas.com.br/retrato-do-poeta-quando-jovem/): Há na memória um rio onde navegamOs barcos da infância, em arcadasDe ramos inquietos que despregamSobre as águas as folhas recurvadas. Há um bater de remos compassadoNo silêncio da lisa madrugada,Ondas brancas se afastam para o ladoCom o rumor da seda amarrotada. Há um nascer do sol no sítio exacto,À hora que mais conta duma vida,Um acordar dos olhos e do tacto,Um ansiar de sede inextinguida. Há um retrato de água e de quebrantoQue do fundo rompeu desta memória,E tudo quanto é rio abre no cantoQue conta do retrato a velha história. - [Na Ilha Por Vezes Habitada](https://blogdospoetas.com.br/na-ilha-por-vezes-habitada/): Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.Então sabemos tudo do que foi e será.O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade,e dizem-se as palavras que a significam.Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.Com doçura.Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.Podemos então dizer que somos livres,com a paz e o sorriso de quem se reconhecee viajou à roda do mundo infatigável,porque mordeu a alma até aos ossos dela.Libertemos devagar a terra onde acontecem milagrescomo a água, a… Pescar - [Eu luminoso não sou](https://blogdospoetas.com.br/eu-luminoso-nao-sou/): Eu luminoso não sou. Nem sei que hajaUm poço mais remoto, e habitadoDe cegas criaturas, de histórias e assombros.Se, no fundo poço, que é o mundoSecreto e intratável das águas interiores,Uma roda de céu ondulando se alarga,Digamos que é o mar: como o rápido cantoOu apenas o eco, desenha no vazio irrespirávelO movimento de asas. O musgo é um silêncio,E as cobras-d’água dobram rugas no céu,Enquanto, devagar, as aves se recolhem. - [Fragmento 4](https://blogdospoetas.com.br/fragmento-4/): O interrogatório do homem que saiu de casa depois da hora de recolher começou há quinze dias e ainda não acabou Os inquiridores fazem uma pergunta em cada sessenta minutos vinte quatro por dia e exigem cinqüenta e nove respostas diferentes para cada uma É um método novo Acreditam que é impossível não estar a resposta verdadeira entre as cinqüenta e nove que foram dadas E contam com a perspicácia do ordenador para descobrir qual delas seja e a sua ligação com as outras Há quinze dias que o homem não dorme nem dormirá enquanto o ordenador não disser não… Pescar - [Não me Peçam Razões](https://blogdospoetas.com.br/nao-me-pecam-razoes/): Não me peçam razões, que não as tenho,Ou darei quantas queiram: bem sabemosQue razões são palavras, todas nascemDa mansa hipocrisia que aprendemos. Não me peçam razões por que se entendaA força de maré que me enche o peito,Este estar mal no mundo e nesta lei:Não fiz a lei e o mundo não aceito. Não me peçam razões, ou que as desculpe,Deste modo de amar e destruir:Quando a noite é de mais é que amanheceA cor de primavera que há-de vir. - [Último Credo](https://blogdospoetas.com.br/ultimo-credo/): Como ama o homem adúltero o adultérioE o ébrio a garrafa tóxica de rum,Amo o coveiro – este ladrão comumQue arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério!É o “nous”, é o “pneuma”, é o “ego sum qui sum”,É a morte, é esse danado número “Um”Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio, como o filósofo mais crente,Na generalidade decrescenteCom que a substância cósmica evolui… Creio, perante a evolução imensa,Que o homem universal de amanhã vençaO homem particular eu que ontem fui! - [Dolências](https://blogdospoetas.com.br/dolencias/): Eu fui cadáver, antes de viver!…– Meu corpo, assim como o de Jesus Cristo,Sofreu o que olhos de homem não têm vistoE olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me assim, pois, a sofrerE acostumado a assim sofrer, existo…Existo!… – E apesar disto, apesar distoInda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo, amigos, quandoEu, de saudades me despedaçando,De novo, triste e sem cantar, morrer, Nada se altere em sua marcha infinda– O tamarindo reverdeça ainda,A lua continue sempre a nascer! - [A um Carneiro Morto](https://blogdospoetas.com.br/a-um-carneiro-morto/): Misericordiosíssimo carneiroEsquartejado, a maldição de PioDécimo caia em teu algoz sombrioE em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadioQue te vender as carnes por dinheiro,Pois, tua lã aquece o mundo inteiroE guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço,Ao monstro que espremeu teu sangue grossoTeus olhos – fontes de perdão – perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,Se fosses Deus, no Dia do Juízo,Talvez perdoasses os que te mataram! - [Sonho de um Monista](https://blogdospoetas.com.br/sonho-de-um-monista/): Eu e o esqueleto esquálido de EsquiloViajávamos, com uma ânsia sibarita,Por toda a pró-dinâmica infinita,Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. A verdade espantosa do “Protilo”Me aterrava, mas dentro da alma aflitaVia Deus – essa mônada esquisita –Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia, com o esqueleto ao lado,Na guturalidade do meu brado,Alheio ao velho cálculo dos dias, Como um pagão no altar de Proserpina,A energia intracósmica divinaQue é o pai e é a mãe das outras energias! - [Tempos Idos](https://blogdospoetas.com.br/tempos-idos/): Não enterres, coveiro, o meu Passado,Tem pena dessas cinzas que ficaram;Eu vivo dessas crenças que passaram,E quero sempre tê-las ao meu lado! Não, não quero o meu sonho sepultadoNo cemitério da Desilusão,Que não se enterra assim sem compaixãoOs escombros benditos de um Passado! Ai! não me arranques d’alma este conforto!– Quero abraçar o meu passado morto– Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à EternidadeVelado pelo círio da Saudade,Ao dobre funeral dos tempos idos! ## Pages - [Contato](https://blogdospoetas.com.br/contato/) - [Sobre Nós](https://blogdospoetas.com.br/sobre-nos/): Bem-vindo(a) ao Blog dos Poetas — um espaço onde a poesia encontra abrigo, a palavra ganha vida e a arte se torna ponte entre sentimentos e leitores. Nossa História O Blog dos Poetas nasceu em [2003] com o propósito de reunir amantes da literatura, da escrita e da poesia contemporânea. Criado com o desejo de dar voz a novos talentos e celebrar autores consagrados, o blog se tornou um ponto de encontro para quem vive e respira versos. Nosso Propósito Acreditamos que a poesia é uma forma de enxergar o mundo. Nosso objetivo é divulgar poemas, reflexões e textos que… Pescar - [Termos de Uso](https://blogdospoetas.com.br/termos-de-uso/): 1. 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