Minha desgraça, não, não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco….
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro….
Eu sei…. O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro….
Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito assim blasfema,
É ter para escrever todo um poema,
E não ter um vintém para uma vela.
postado por Ederson Peka em 14-06-2005
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Felipa disse:
Descobri este poema num livro antigo, uma compilação de poesia sarcástica intitulado CANCIONEIRO ALEGRE I e compilado pelo grande escritor português Camilo Castelo Branco. Gostei muito.
Felipa disse:
Encontrei também este:
NAMORO A CAVALO
Eu moro em Catumby. Mas a desgraça
Que rege a minha vida malfadada
Pôs lá no fim da Rua do Catete
A minha Dulcineia namorada.
Alugo (três mil réis!) por uma tarde
Um cavalo a trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos, suspirando,
À minha namorada na janela…
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trémulo, amoroso,
Algum verso bonito… mas furtado.
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar, de acanhamento…
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a comédia – em casamento.
Ontem tinha chovido… que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama…
Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a carga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente
Fui mesmo sujo ver a namorada…
Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso, ela, irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela…
O cavalo, ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada.
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu, que sofrera no pagode,
Dei de pernas, corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante: a calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!…
Álvares de Azevedo
(in CANCIONEIRO ALEGRE I, compilado por Camilo Castelo Branco)
nelson coimbra disse:
ESSE POEMA MORA DENTRO DE MIM HÁ 80 ANOS. E FOI JUSTAMENTE O ACONTECEU COMIGO. FUI VER MI9NHA NAMORADA DE TERNO NOVO E LEVEI UM BANHO DE LAMA DE UM M OTORISTA INVFEJOSO.